sábado, 12 de julho de 2008

Realidade

O único modo de um homem ser grande é que lhe façam grande os outros, por meio da leitura de seus atos e de suas palavras. Como almejar a grandeza então, se não pudermos exaltar aqueles que se destacam diante de nosso juízo? A única maneira de ser reconhecido é reconhecer. Por este motivo, o papel dos homens é, precisamente, admirar os que merecem. Entretanto, se admiramos pessoas que em nada engrandecem o mundo, espalhamo-nos na pequenez e reproduzimos, assim, um mundo pequeno.

Os homens não saem dos livros, os livros é que saem dos homens. Admirar a imperfeição não é erro, mas o acerto que permite que se produza algo perfeito. Nesse sentido, a perfeição é justamente o incompleto, o humano, o impuro: o próprio imperfeito. Contemplar não é crime. Admirar é uma necessidade. É somente por esse exercício que se vai adiante. A crítica exige que se efetuem operações de soma e subtração de acordo com o juízo merecido pela situação, indivíduo ou grupo inquirido. Alterar ou evitar operações é o verdadeiro erro. E o resultado é catastrófico: os grandes homens se encerram em masmorras e a pequenez triunfa diante de nossas instituições. E o que essas instituições garantem não é a segurança, mas a falta de admiração crítica à novidade.

Enquanto se puder mascarar sob a alcunha de natureza todo tipo de comportamento que não existe senão pela produção racional de conteúdo por homens, um escudo protegerá aqueles que não enxergam a necessidade da novidade e não percebem que o mundo segue pelo que é e por suas possibilidades. Com o devido respeito às necessárias proporções, o passado não existe senão no passado. A história tem reconhecida utilidade de compreensão, domínio e serve tanto ao propósito de enriquecimento cultural quanto ao de satisfação pessoal e mesmo coletiva. Seus constructos cá estão, mas o ponto do processo de edificação de que trata não pode mais ser trabalhado. Apenas se pode mudar agora o que existirá em seguida. A existência humana é, portanto, um processo de edificação daquilo que será. O passado serve de referência a comparações e entendimentos futuros, mas não existe. Sua leitura pode mesmo carregar um sentido utilitário, mas nesse caso o objetivo é único: compreender para interferir hoje no que haverá amanhã.

Desse modo, compreende-se como o homem é produto de si próprio e como apenas homens constroem a si e aos que o cercam. Em última análise, apenas o que tem existência verificável é agente criador. E é a compreensão do ser humano acerca de si mesmo que permite lapidar a essência humana. Notar que o homem não nasce pronto e que toda sociedade que o precedeu difere daquela em que ele viverá é necessário para que se perceba que tanto o sujeito é produto da teia de relações em que vive quanto esta teia é modificada e recriada constantemente por este e por todos os sujeitos nela presentes. A sociedade e suas instituições que coagem os indivíduos são produtos da relação entre os indivíduos. Dessa perspectiva, é plenamente aceitável que o homem se enxergue como capaz de moldar a si próprio e aos constructos de seu esforço. Essa compreensão de que não nascemos prontos e dotados de um destino é que nos permite alterar a cada instante aquilo que produziremos de nós e do mundo que nos cerca. A vida se apresenta como improviso, um repente; não estamos numa novela e não interpretamos papéis determinados. Se puder existir um controle sobre nossa obra, somente os homens é que são capazes de exercê-lo. E é justamente a capacidade humana de questionar que tem movido adiante as sociedades existentes em rumos diferentes; é a capacidade de criação dos homens que nos premia com o novo.

A grandeza é notavelmente o resultado da interação entre homens diante da realidade que os cerca. E a pequenez também. A justiça está na capacidade de reconhecer e admitir os atributos dos indivíduos. A retórica pode servir a qualquer finalidade e pode muito bem moldar verdades. Mas o que existe é o momento. E o futuro é o que existirá. Não é apenas sentido subjetivo que fundamenta a argumentação, mas a realidade. Este é o critério: o mundo que nos cerca.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Breve Paz com as Palavras

Não sei se fiz tudo o que tinha a fazer
O tempo parece ter me vencido
Espero um dia ser dele senhor e poder controlá-lo
Como hoje o faria se pudesse
Espero conhecer em breve tais segredos

A verdade é que passou
O tempo acabou, embora pareça que mal começou
Ou bem começou, embora pareça que já acabou
Mas, seja quem for, não fiz
Não sou todo fracasso por isso
Mas sinto-me mais distante de não sê-lo

Faltou coragem
E é tudo parte desse processo
Eis o desenvolvimento da crítica
Nada é tão simples ou certo
Quanto as palavras, palavras
Que mal existem, sei que não existem
São meu inimigo e preciso delas
Quem sou eu senão o que expresso
E quem sou eu que uso palavras
Quando elas nada significam

Mas o tempo
Este é seu próprio senhor
Este existe e em diversas dimensões
Em todas que houver
E por isso me controla
Persegue e finge
Como o melhor cão
Que é meu amigo
E num dado momento diz:
Eis a tua última oportunidade!
E é então que acaba
Tudo passa
Tudo acaba

O mundo é um lugar perdido
E o problema dele é um só:
O homem
O desenvolvimento da inteligência,
Acrítica, note
Resulta nisso: Nada
Parafernálias e cacaréus
E a evolução inútil
Eis nosso legado
Morte e Destruição
Desde sempre e para sempre
Eis a essência de nossa existência
Enquanto sujos que se lavam
E seguem imundos

A linha tênue que separa
Meu pessimismo
De minha alegria e amor
Demarca justamente
Do que sou capaz
E é esta dualidade que me compõe e me consome

É o homem
Que constrói
E compõe sonhos diversos
Materializa fantasias
Mas não fantasia como deveria
E por isso é que é homem
E não bicho
Afinal bicho não tem papel que valha alma

Amanhã não me importarei tanto com os que vierem
Mas hoje me importo com os que aqui estão
E não mais amanhã estarão
E é por isso que é
Tudo é transitório
De definitivo
Não te querem nem a alma
Amizades eternas não movem o processo de produção
E humanização nada é senão
Conversa
De vagabundo
E é o que sou: o vagabundo
Por isso preciso das palavras
Que ninguém irá ouvir
Por isso preciso da alma
Que ninguém irá comprar
Pois nela não há valor de que necessitem

Interação é segurança
E isso é lucrativo
Mas me engana quem diz
Que é necessário
É um erro:
Apenas isso.

Podia parar por aqui
Mas vou além
Ou não
Não importa
Já não faz diferença
É tudo cíclico
Na medida em que é infinito
É como a curva que tende a zero
E nunca chega nele
Divida meu valor ao meio
E nunca me anulará
Sou mais que nada
E isso não é muito
Mas já é algo:
É o que sou.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Desrespeito

Um dos maiores exportadores mundiais de petróleo, um dos países latino-americanos que mais sofreu historicamente com a exploração estrangeira, marcado pela miséria e pela desigualdade social. Para a grandessíssima Rede Globo de Televisão, apenas uma favelinha.

O processo de internacionalização do capital e as mudanças drásticas por ele sofridas durante todo o século XX levaram a uma excessiva exploração dos países ditos terceiro-mundistas para que o “primeiro” mundo pudesse dar a sua classe trabalhadora a oportunidade de inserção no mercado como camada consumidora, e não apenas produtora. Ouvir o discurso de Keynes foi muito inteligente, mas teve um custo: ao diminuir a mais-valia, a exploração direta ao trabalhador local, esses países tiveram de buscar outras fontes de riquezas que permitissem manter o mesmo nível de investimentos já existente.

Num primeiro momento, explorar as matérias primas e o possível mercado de miseráveis dos países pobres foi a saída. A partir da segunda metade do século XX, a mão-de-obra barata oferecida pela pobreza foi o perfeito objeto de exploração. “Salários baixos” e “desemprego” tornaram-se sinônimos de “bom investimento”, “lucro” e “rentabilidade”. Embora uma pequena classe terceiro-mundista seja conivente com essa exploração, ela o é justamente para que possa acessar o mercado que é negado à grande maioria da população dos países pobres, esta sim enganada, que experimenta os sabores da globalização pelas propagandas televisivas enquanto vive a miséria.

É nesse contexto sócio-econômico que surgem, na Europa, presidentes conservadores com tanto apoio popular local e, na América Latina, presidentes populares ditos de esquerda que propõem mudanças para uma população sedenta de justiça social. É a repetição da história da humanidade, mas para a fantástica Rede Globo de Televisão, somente um bando de assassinos sedentos de sangue e desejo de manipular o povo. Para Arnaldo Jabor, então, apenas uma falácia daqueles que não enxergam no problema do explorado o prazer pela exploração. Para os pseudo-escritores (leia-se autores de novelas), é apenas birra dos partidos de esquerda. Afinal, só em 2007, 8.557.539 reitorias de universidades particulares foram ocupadas por estudantes no Brasil, não? E pior, por estudantes-comunistas-vagabundos! É aí que começo a rir e me irritar concomitantemente, pois são tantas as incongruências que eu morreria sem poder narrá-las. É triste acreditar que tanta gente morreu em luta para que um imbecil desse tipo, de quem não me importa nem o nome, tivesse liberdade para pronunciar tamanhas asneiras infundadas, e por meio cuja gravação só não é pior que a redação.

Se não vender a alma é ser vagabundo e admitir que as diferenças sociais são o câncer desse país é ser comunista, encaixo-me no estereótipo de idiota desenhado pela Globo, mas não me sou muito fã de alcunhas. Creio em meus princípios de verdade, e não me importam como os rotulam.

Porque os alunos da Globo são rebeldes sem causa, alienados lutando sem saber por qual motivo, pagando por um produto que consideram ruim e protegidos das personagens menos carismáticas da trama. É engraçado, mas enxergo nessa descrição todo um povo, ou diversos povos que são, esses sim, verdadeiros alunos alienados dos grandes senhores da mídia.

Tento manter a calma, a tranqüilidade, a visão de mundo centrada que me permite analisar e criticar a realidade em que vivo. E é um trabalho árduo, principalmente pela dificuldade em aceitar uma imposição de alguém como a Rede Globo de Televisão, que reza a seus súditos que “o verdadeiro líder tem que ser imparcial e democrático”. Bah!, haja baboseira... Ser imparcial e democrático, para eles, significa não tomar partido enquanto eles mesmos manipulam, livremente, toda uma população – a brasileira. O verdadeiro líder tem de ter a coragem necessária para tomar partido, sim, pelo lado mais fraco. Afinal, o poder é o artifício pelo qual se deve estabelecer a igualdade, seja de que tipo ela for. Mas falando em termos tão bonitos como os que o canalzão utiliza, lá vai a massa acrítica seguir os grande reis do jornalão, afinal o que importa é justamente ajudar a manter essa ordem pseudo-democrática que protege os grandes ladrões. Como disse recentemente o jornalista Mino Carta, “a imprensa brasileira é um partido político”. E esse partido prega uma democracia que é, na verdade, a maior prisão que há, porque libertar-se passou a ser politicamente incorreto. A globalização e a “ordem” criaram um monstro indestrutível, uma estrutura mundial em defesa do que for necessário para evitar mudanças. As pessoas se odeiam e nem entendem por que mentem e enganam. Funcionários públicos atendem ao povo como se fossem iluminados alimentando os porcos, e não percebem a igualdade básica que nos une.

Ontem apoiaram assassinos, hoje levantam bandeiras de justiça e paz para que se construa uma imagem bonita do monstro que são. Golpistas, falam em democracia como se ela fosse o escudo com o qual os idiotas do topo da montanha bloqueiam a erosão que poderia formar um solo plano. Mudam os desígnios da natureza dos povos como se esse fosse um “direito democrático” deles, mas não dos políticos... Políticos, jamais governem! Essa regalia, hoje, se reserva para a imprensa.

Isso sem falar no desrespeito, tão bem maquiado nessa enxurrada de informações que só serve para compor a nova opinião geral a respeito de algo. De todo modo, não importa. Somos todos inferiores, incapazes de abstrair. E viva a democracia!

sábado, 3 de novembro de 2007

Algodão?

“Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem esta prisão
(...)
Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem”
Trechos de Somos Quem Podemos Ser - Engenheiros do Hawaii

“They hurt you at home and they hit you at school
They hate you if you're clever and they despise a fool
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules
(...)
When they've tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can't really function you're so full of fear
(...)
Keep you doped with religion and sex and TV
And you think you're so clever and class less and free
But you're still fucking peasants as far as I can see
(...)
There's room at the top they are telling you still
But first you must learn how to smile as you kill
If you want to be like the folks on the hill
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
If you want to be a hero well just follow me
If you want to be a hero well just follow me”
Trechos de Working Class Hero – John Lennon


Algodão?
É um vício do homem esquecer o que ele pensa estar abaixo de si. Não nos dizem apenas que as nuvens são de algodão, mas também que o mundo se reduz a isso que podemos ver. Isso que nos deixam ver. Isso que nos deixam ser. Constroem a muralha perfeita, fechando-nos na mais bela redoma. Enchem de adornos tudo o que está inserido naquilo que é o perfeito modelo da alienação. E privam-nos dos choques, dos entraves mais importantes, dos únicos momentos em que as circunstâncias podem realmente nos ensinar algo.

Um dia descobri que a música não era apenas música, que a arte não era apenas arte. Nada era apenas o que deveria ser. O mundo estava destruído, a diferença estava instalada, os valores imbecis que nos governaram vinham abaixo repentina e vertiginosamente. A base da mentira sempre esteve na ilusão. Iludem-nos quando afirmam que uma ditadura é diferente da outra, repetindo que apenas é ou não ditadura o que o Alto Comando assim considerar ou não, quando a única diferença é o capital, que rege inclusive o nível de censura dentro de um governo. Afinal, para eles a “ditadura” instalada pela verdadeira democracia é um crime, mas a ditadura baseada na falsa democracia é louvável.

Será que eles acreditam na própria noção de democracia? Será que também estão iludidos pelas próprias convicções? Querem criar governos de “todos” para poucos, e omitem o caráter excludente dessa falácia. Tratam de condenar os que procuram algo de todos para todos, afirmando que eles estão apenas em busca de algo de “todos” para si ou de si para “todos”.

As verdadeiras opções são mal-faladas e destruídas nos círculos de salafrários, e depois eles surgem com aquela conversa de liberdade e mascaram a opção que nos indicaram, para que escolhamo-na e não lutemos contra ela enquanto ela nos destrói. E assim somos facilmente destruídos sem sequer notar. E, quando acordamos, somos loucos.

Ah, os loucos merecem meses, anos, séculos, vidas inteiras de raciocínio, dissertação e da devida elucubração. São um quadro perfeito, embora mal vistos. Fogem da realidade que lhes é imposta, e por isso são verdadeiros revolucionários despercebidos. Enxergam por trás da barreira policial que determina quem está ou não à margem do sistema, e por esse motivo são descartados pela sociedade. Não seguem padrões nem regras que apenas queiram lhes moldar dentro do que os modelos julgam por perfeito e completo. Enxergam que as nuvens não são de algodão, que a arte é uma arma e que “a working class hero is something to be”. Eles sabem quem é o camponês e quem é o senhor feudal. Sabem que a polícia não está aqui só para protegê-los, mas sim para manter a sociedade dentro de seus torpes padrões.

Almejo a loucura e sonho com o dia em que estejamos todos livres do maior vício do homem – o de ignorar, por comodidade, o que deveria conduzi-lo em busca da diferença, da alternativa. Luto pela liberdade, uma liberdade que nos garanta o direito à diferença e faça-nos romper o lacre e disseminar a verdade. O mundo não é lindo, nada é perfeito, e a mais perfeita beleza está justamente no homem capaz de reconhecer isso. Não adianta tapar os olhos e dizer a todos que façam o mesmo, pois os loucos sempre enxergarão, e sempre tentarão gritar e quebrar as paredes de vidro desse modelo sujo.

Existe muita coisa em todas as direções e não devemos olhar apenas acima, a buscar o inatingível, porque isso apenas nos mantém mais distantes da crítica. Sorrir e adorar falsos ídolos sobre a montanha pode até ser um sonho, mas não para os que buscam a consciência. A dor existe, e um recado martela as mentes dos que tentam escondê-la: a glória deles é fictícia e efêmera.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Corrupção

Entendi que a corrupção é algo diferente do que me disseram. Somos corruptos por ângulos, e não da maneira maniqueísta como os mal informados carregados por suas visões canhestras do mundo me disseram. Sou sim um corrupto para aquele que deseja corromper a todos sem admiti-lo, mas não perante aquele que enxerga no que me julga desse modo o verdadeiro corrupto. Somos todos corruptos então, e sejamos-lho sem reclamar nosso título de honestidade, afinal isso já não importa mais.

O que vejo no mundo que me cerca é que as pessoas estão cada vez mais corrompidas e aderindo àquilo que as corrompe, enquanto os loucos como eu são mantidos distante da posição de informantes ou simplesmente deixam de serem ouvidos pela sociedade: calamo-nos à força, para que todos possam continuar sendo corrompidos pelos que tanto nos odeiam. Querem que fechemos nossos olhos e bocas, para que nossas mentes voltem-se a raciocinar sobre a teoria livre de prática que não existe senão nos sonhos dos mesmos corruptos que desenham a realidade morta em que ainda vivemos. Estão em toda parte, aqui e ali, ao meu lado neste momento e em todos os outros, embora eu tente sempre minimizá-los e esquecê-los. O desafio é cada vez maior, e as pessoas desistem de lutar conosco. Quem somos e quem são?

Na minha concepção de corrupção, encaixo justamente os que me dizem que o sou e sempre serei. Não que não o seja, nem que não admita nem saiba diferir quem é ou não. Mas é que muita coisa caracteriza um corrupto, e de diversas formas posso sê-lo. Quando digo que já me corrompi, isso é obviamente lido de diversas maneiras dependendo do expectador, não há aqui uma universalidade, então consideremos as minhas convicções. Tudo pode corromper um homem, e não é por isso que ele é um corrupto para mim, mas a verdade é que hoje poucos procuram manterem-se livres disso ou sequer pensam no assunto.

Creio que todo aquele a seguir as próprias convicções, mesmo que as mude e desde que o faça em razão de seguir na busca daquilo que deseja e tem como projeto nunca manchado, não está se corrompendo. Isso não inclui aqueles que adaptam as devidas antíteses ao desejo de outrem e conseguem, assim, produzir a síntese adequada aos interesses dos corruptores. Mas pode, sim, incluir os que mancharam todos os projetos anteriores e repentinamente traçaram novos objetivos livres das marcas dos oportunistas da coalizão entre sujos e limpos – de onde não restaria nada além de imundície. Afinal, a essência passada não existe mais, e é isso que nos permite ser, no caso, incorruptíveis.

Concordo em pontos com os que me dizem que o ser humano é corrupto por natureza, mas o que digo de novo é que há exceções. E eis a questão: o Estado corrompe o homem ou só o revela? Já disse numa outra oportunidade que confio sempre nos homens, mesmo sabendo que somos corruptos por natureza, e hoje explico isso. O Estado já corrompeu e corrompe muitos homens, mas se isso lhes sucedeu é porque, de alguma maneira, permitiram que ocorresse. E estes, sinceramente, não me interessam – por hora. Perderam-se e não tem mais utilidade alguma – agora – para os que ainda se mantém honestos e limpos. O que atordoa é que a maioria se suje, e mesmo os ideais mais lindos e os melhores idealistas sejam manchados e corrompidos, justamente quando deles se espera que façam a forra dos “incorruptíveis”.

A única chance que a humanidade ainda tem está justamente na crença que ainda mantenho com relação aos homens. Não importa, nesse ponto, se falamos dos corruptos ou dos que se mantiveram a vida inteira incorruptíveis, afinal a ocasião fabrica os fatos e os seres que ordenam o mundo. E é exatamente porque são raros os que aceitam a consciência necessária que existe tanta corrupção, é por esse motivo que poucos se salvam em meio à selva que é o mundo regido pelo capital. E são estes que parabenizo: os que lutam contra a maioria, nadam contra a corrente e não desistem, ou até os que já desistiram e caíram nas lágrimas quando entenderam que somente o Projeto Universal – utopia para os corruptores – poderia levá-los ao lugar que buscavam quando abraçaram tanto metal reluzente.

Entenda-se que a crítica necessária não é algo nato, mas sim uma habilidade que desenvolvemos ou não no decorrer de nossas vidas. É portanto uma contingência. Desse modo, não podemos sempre exigir que todos critiquem, mas podemos estimulá-los a isso e também não permitir que nos calem só porque criticamos. Por esses motivos é que não devemos julgar um homem por perdido quando sobre ele pesar a corrupção, mas acreditar que ainda há para ele tempo para que haja crítica e torne a traçar um novo projeto e crie em si uma nova essência, esta limpa e livre de corrupção.

Não é que seja eu o dono da razão, mas também não o são os corruptores, esses sim inimigos naturais dos homens. Porque quando alguém está tão apaixonado pela corrupção que passa a proliferá-la, ele já teve a oportunidade da crítica, mas fez a leitura de mundo errada que permitiu que prosseguisse agindo de má fé. Para esse homem não vejo espaço em minha ilha: é um salafrário. E é esta classe parasitária e oportunista que mantém a corrupção viva, pois a oferece para os ainda não foram comprados nem corrompidos. Talvez haja tempo também para eles, talvez sempre haja tempo – desta máxima de que um dia tanto ri hoje extraio sentido. Mas mesmo que o tempo lute para salvá-los, o que importa a nós é vencê-los, ridicularizá-los por argumentos, para que estes homens sujos passem a ser exceção e a natureza faça do homem honesto o modelo, não a ser seguido pura e simplesmente, mas primeiro a ser admirado e analisado.

A corrupção pode ser até uma arma, desde que não seja a vista do meu ângulo quando observo alguns de nossos senadores. A corrupção que os verdadeiros corruptos vêem em mim, essa é uma arma, porque é na verdade uma fuga da suja realidade mal qualificada e distorcida por alguns – logo, não é corrupção. Quanto à corrupção que eu vejo neles, essa é um problema, mas tenho de acreditar que a crítica e a consciência podem vencê-la, senão não há no que mais crer e a existência perde todo seu sentido já tão deturpado – e eis a assustadora falsa liberdade. Por isso acredito no homem, e espero que ele possa se livrar do julgamento que lhe fazem os verdadeiros inimigos. Só assim seremos livres, romperemos os falsos valores que os salafrários adoram e nos livraremos da leitura de corrupção que eles fazem.

sábado, 11 de agosto de 2007

A Liberdade e Seus Antônimos

Não existe doutrina que me pareça mais bela que o anarquismo, e não há outra que esteja mais distante da nossa realidade também. A sociedade, com suas estruturas e formas de organização, nos últimos séculos, tomou caminhos terríveis, em plena perseguição ao capital – por poucos – e à sobrevivência – por todo o resto. O capitalismo destruiu todas as probabilidades de organização em torno de um grupo de pessoas que se respeitassem e autogerissem sem a necessidade de um órgão maior e corrupto, criou mazelas indestrutíveis e diferenciações de padrões e de classificações sociais que, embora não firam o fato de o homem continuar a ser, ferem o fato de que o homem é Para-Si. Embora muitos ainda preguem a Revolução Armada como solução para a podridão de um sistema falido, infelizmente ela soaria como vilã, embora eu não a imagine assim, tenha visto que estamos falando, obviamente, de algo muito mais complexo. Do modo como o capitalismo selvagem desenhou a vida moderna, uma sociedade libertária implicaria na incapacidade de sobrevivência dos dejetos humanos do liberalismo, pois estes dependem da esmola que os “grandes filantropos” (que os realmente bons não se sintam ofendidos, são mera máquina de propaganda dos mentirosos, ou objeto de renda para corruptos – ressalva seja feita para as exceções, os bons homens que analisam a realidade local e as necessidades, nunca genéricas, daqueles que precisam de ajuda) lhes fingem dar, e sempre dependerão, uma vez que isso é necessário para que o discurso neoliberal faça sentido para os espectadores incautos. E esse absurdo é, antes de tudo, uma defesa – embora pareça propaganda negativa –, veja como são inteligentes os capitalistas mais desumanos – não à toa estão no poder e governam o mundo há tantos anos –, chegam ao ponto de aceitar diferenças sociais criminosas que apenas servem para manter sob controle todo questionamento e crítica quanto ao motivo de vivermos como vivemos – uma vez que somos somente o que somos e o que construímos –, distantes da possibilidade popular de ascensão planejada e construída através da libertação de regras e valores falsos e sem fundamento maior que o capital, que nada mais representa do que as nossas correntes atadas às mais pesadas rochas.
E se a angústia, preço do racionalismo, é o resultado do excesso de responsabilidades humanas, ela torna-se incontestável e demonstra-se verdade, embora eu tenha aprendido que a construção de um ser que realize suas pretensões e ainda possa manter a crítica necessária à vida – verdadeira – é a única maneira de amenizar o pesar causado por essa realidade fomentada. Ainda assim, somente a interação e a observação de cada um para todos e de todos para cada um pode comprovar e colher os resultados de todas essas transformações, pois sem a convivência com outras pessoas, o ser, que já é único, se torna algo sem motivo para ser. Precisamos dos olhos alheios, pois mesmo que isso não mude a construção do Para-Si, torna a obra real.
Recentemente critiquei aqueles que agem em busca da perfeição através da crença em idéias e escolhas aparentemente melhores, mas que não passam de falsa solução para a angústia, pois a idéia inicial de caminho agradável a se percorrer para um objetivo acolhedor é negada quando esquecemos que somos muito mais do que uma corrida pelo vestibular. O futuro não pode depender unicamente de algo tão sujo – e necessário – como o capital.

Observando a Primeira Página do Jornal Folha de São Paulo de 26 de janeiro de 1984, observei algo, no mínimo, curioso: trezentas mil pessoas saíram às ruas da cidade de São Paulo pelas diretas para Presidente da República. Na mesma Primeira Página, uma nota de rodapé faz constar que a solenidade comemorativa dos 50 anos de fundação da USP foi marcada por uma invasão ao anfiteatro do Centro de Convenções da Cidade Universitária, onde alunos e funcionários exigiam diretas para presidente e reitor. Mais de 20 anos depois, a massa que foi às ruas de São Paulo atingiu seus objetivos, mas os estudantes da USP não. Talvez porque a massa seja facilmente manipulável, já os estudantes... Eleições diretas para Presidente da República não chegam a ser problema, uma vez que grande parte das pessoas – que tanto lutaram pela democracia – infelizmente não sabe o que está fazendo quando vota, logo, isso não oferece tanto risco aos poderosos acumuladores de capital que governam o mundo há tanto tempo. Mas quanto aos estudantes, ah... Uma vez que sabem pelo que estão lutando, não alcançam o objetivo, e justamente pelo perigoso excesso de consciência, que tanto assusta os donos da Terra.
E se alguém se sente aqui ofendido, saiba que não acho feio lutar (muito pelo contrário!), mas acho ridículo que os maiores beneficiários da luta se acomodem e façam mal uso do objeto de conquista. É como um povo que vê estudantes irem às ruas para derrubar um liberal corrupto (leia-se F. Collor) e elege, anos depois, FHC. Não faz o menor sentido, é cegueira pura – infelizmente.

De todo modo, tudo pelo que passamos, atualmente, é o resultado da pressão e do conjunto de forças desnecessárias que a sociedade exerce sobre aqueles que deveriam estar reconstruindo as vigas derrubadas pelos sanguinários sem alma. E, assim, continuaremos sempre a desviar das estruturas que vem abaixo diariamente, fingindo que estamos vivos e lutando para assim estarmos um dia – e enquanto isso, a vida passa.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Mundo Estranho

Pessoas exigem cada vez mais umas das outras, e nem sabem mais por qual motivo. Crianças são criadas em mundos de terror, onde tudo o que importa é o futuro, mesmo que elas ainda não saibam o que é isso. E quando elas crescem um pouquinho, são atiradas de cara numa parede cheia de pregos atravessados, com a face pontiaguda a lhes perfurar os corpos por inteiro: ESCOLHA, e faça-o rápido. Não se apresse, mas lembre que não há demora que compense os que não pensam no capital. Ah, o Capital! Sim, Capital, não capital. Nada de tão suma importância pode ser escrito a letras minúsculas. E por ele viveremos e morreremos, perseguiremos uns aos outros e destruiremos amigos e amizades, até mesmo as que ainda não estiverem edificadas por completo. A competição se torna o segredo para o sucesso e, sem saber por que, as crianças perseguem isso como se estivessem se afastando do risco dos pregos, quando na verdade já foram por estes feridos de morte. E é assim, e será cada vez pior, enquanto houver homens vivendo naquilo que chamamos de mundo globalizado, mas onde a maioria deles vê apenas o cenário da vingança: o local onde aqueles que sofreram com os machucados e cortes poderão empurrar novas crianças para a mesma parede (então maior e mais moderna), mas desta vez as suas crianças, que um dia também terão as próprias crianças para empurrar.

É importante lutar por algo, perseguir seus sonhos e torná-los realidade, mas cada vez menos nossos sonhos nos satisfazem... Penso que um dia os trocarão por anúncios pagos. Iremos receber (em dinheiro!) para ter os sonhos que melhor atenderem a vontade de outrem, e isso deverá contribuir para que um dia possamos comprar nossos próprios sonhos. É um mercado promissor!

E aqueles que podem sonhar sem preocupação nunca o farão melhor, e não graças ao esforço próprio, mas ao de seus antepassados, no máximo (quando não graças ao nosso).

A burguesia nunca esteve tão bem articulada (e fechada) e nunca alimentou tão bem ao proletariado, que nunca esteve tão perdido no espaço em que vive. A classe média pensa que pode comprar passagens na primeira classe, mas não contaram pra eles que aquilo é econômica maquiada para que eles se satisfaçam e não invadam a verdadeira primeira classe, onde já estão aqueles que um dia precisaram destes bobos, mas não precisam mais, e só os iludem para que não se sintam parte do proletariado que são.

Marx fez estudos profundos das classes que coexistiam no período em que viveu (creio que ninguém tenha feito isso melhor que ele), e estas classes pouco mudaram desde então, e embora hoje pareçam outras, as únicas diferenças estão nas porções de rações recebidas e devolvidas por cada uma e a cada outra. Em minha opinião, classes não deveriam existir: somos homens, e por mais desenvolvida que seja uma sociedade, não deveria esconder a real natureza do Ser. Cada um deveria ter aquilo pelo que pode lutar e que é capaz de defender, afinal, como posso ser dono de algo que existia antes de mim e continuará existindo sem mim? Desse modo, não há o menor sentido no estudo da organização social, se isso não existe na nossa natureza, e é só uma falácia da nossa mente evoluída. Leis são um absurdo, bem como regras de convivência e a ordem. Não é que não me agradem, mas tente pensar sobre o assunto... Como podemos criar coisas tão complexas que seriam totalmente desnecessárias se as pessoas simplesmente respeitassem umas às outras?

É realmente complicado, triste e cada dia mais doloroso, mas não faremos nada para alterar isso, somos bichos presos às paredes da nossa Caverna, com medo da luz que poda manchar a nossa visão de mundo bem construído e projetado contra a parede do fundo de nossa habitação. Talvez por isso nunca tenhamos coragem de deixar nossas crianças livres dos mesmos fantasmas que nos atormentam agora ou atormentaram outrora. Talvez por isso amanhã ponhamos nossas crianças diante de pregos e firamo-nas, ao invés de pô-las no chão de terra. E por isso prosseguiremos assim, rumando à eterna evolução e ao fiasco, em simultâneo.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Como assim Quem sou eu? É tudo uma questão de confiança

Confio sempre nas pessoas, apesar de saber que somos todos corruptos por natureza. Creio na regeneração do espírito, mesmo conhecendo a impureza do corpo. Sou justamente o que posso, e sempre serei, ainda que eu queira sempre ser melhor. Nunca dominarei os ventos e os mares, apesar de saber que passarei boa parte do tempo de minha vida estudando seus fenômenos e os a eles relacionados, entre outras coisas.

Não acredito na paz, na diplomacia e no cooperativismo multilateral que não vise o lucro ou o poder, financeiro ou não, mas não admito.

Nunca lutei por nada em vão, nem conquistei nada grandioso por esse caminho, mas já obtive mostras de que não é tudo que merece tanto esforço, embora saiba que, quando algo merece o quanto se luta por isso, traz recompensas ou o simples prazer desvinculado de vencimentos e cotas, que tão próximo da felicidade nos posiciona, se é que ela existe ou existirá, de algum modo, algum dia.

E nada disso é pouco, ou sobeja, ou ainda está na medida certa, mas é, sim, justamente o que é e quanto é, seja lá o que for.

Não digo nada de positivista nem de estimulante, porque acredito que “auto-ajuda” não pode ser fornecida por outrem, visto que o prefixo “auto” define justamente que cada um de nós deve ajudar a si próprio. Entretanto, não me nego a ajudar ninguém, desde que eu possa e queira, ou não queira, mas não saiba como dizer não, ainda que, jamais, eu procure ajudar desse modo, pois não creio e nem posso supor que a verdade seja genérica, e sim dou vivas à dialética. E como dou vivas.

Não sei se sou capaz de diferir entre lixo e arte, mas tenho absoluta certeza de que Fernando Pessoa é (ou foi) arte, e Saramago também é, e perdoem-me pelo julgamento, Oswald de Andrade e Tarsila não me agradam nem um pouco, para ser bem sutil e até delicado.

Não tenho nada contra idiomas bárbaros ou estranhos a meus conterrâneos, mas talvez contra alguns poucos dos que destes se utilizam (dos idiomas e, por vezes, até dos meus conterrâneos).

Não tenho certeza absoluta da ressurreição da carne, embora me agrade a idéia, de certo modo, afinal estudar biologia e reaprender procedimentos de eventos e orientação a objetos não deve ser a coisa mais interessante entre todas as que existem nas dimensões do Universo. Quanto ao Espírito Santo, é uma idéia magnífica e certa, só não foge totalmente do incerto quando me questiono acerca de sua singularidade... Como pode ser único se é algo que está em todo o canto e em todo o povo? O importante é que isso afirma sua realidade e independência de raça ou credo: toda a pluralidade do mundo organizada de maneira singular, por nós e para nós, em nossa reunião!

Esportes são para os habilidosos, mas me atrevo com freqüência às práticas físicas que me agradam, embora devesse fazê-lo mais. Concordo com os que afirmam que deve haver equilíbrio perfeito entre mente, corpo e espírito, e me aproximo disso, não sei se por falta de muitos requisitos ou por sobra da maioria, mas pouco importa tudo isso, afinal de onde viemos que voltar havemos, como reza o ditado. E tudo que temos é justo o que fazemos, ou nem isso, talvez o saldo, mas nem esse corpo emprestado dos átomos de Carbono, Hidrogênio, Oxigênio, Nitrogênio, Fósforo e Enxofre da TERRA temos. Quem sabe o seu filho não use um pedaço de minha pele para composição histológica, ou seu neto, se destes algum tiver, hoje ou num futuro, próximo ou não.

E de tudo, o que fica é o que sentimos e produzimos, desde que tenhamos notificado àqueles que nos despertaram e a quem nutrimos tais sentimentos, se bons, ou a mais gente, se ruins, e também se alguém puder desfrutar do que quer que tenhamos, alguma hora, produzido.

Crio, destruo, monto e desmonto, jogo e rezo, peço e digo sim, nego e veto, como fez o sábio Graco, mas prefiro fazer um bom acordo para poder permitir àqueles que me permitirem algo ou me compensarem.

Durmo demais. Tardo a acordar. Exijo e não cumpro. Cumpro sem exigir. Não corro atrás de tudo, mas peço respeito e em troca tento oferecê-lo. Nunca senti coisa alguma a ponto de tocá-la, exceto um sorriso (repetidas vezes, assumo, e algumas acompanhado do correspondente abraço), mas já me atrasei inúmeras vezes, e espero que isso nunca tenha decepcionado profundamente ninguém com quem me importo.

Poucas vezes amei ou amarei em minha vida, mas nestes momentos estive e estarei embebido neste álcool, ou veneno, ou elixir, e poucas coisas me fizeram ou me farão mais feliz, ou foram ou serão merecedoras de meu esforço e atenção. Nunca soube nem entendi o que eu senti, e nem sei se já me esforcei por entendê-lo ou expressá-lo, mas deve ser justamente, ou também, por isso que sou exatamente o que sou.

Nunca escrevi nada extenso o suficiente nem que tenha me agradado tanto quanto a outros (quase nunca muitos, penso eu). Não entendo como o prazer e tudo que se pode desejar possam fazer alguém infeliz, embora pareça claro, e seja, já que tantos abominam a superficialidade e muitos que dela se servem não se sentem satisfeitos.

Uma ilha comunicável ao mundo e que receba suprimentos mensais, e uns poucos pares de pessoas de que gosto, distribuídas em casas aconchegantes e simples, como aquela em que estarei, e que eu possa visitar com freqüência, mas sem qualquer rigor. Talvez uma breve sociedade onde ninguém esteja competindo, nem fingindo ou sequer se desenvolvendo, e que não cresça demais ou sem propósito, mas onde haja música, da boa, e risos, além de alguém que me ame, e um lindo rosto feminino que eu possa admirar, e que sorria agradavelmente. Se for muito e impossível, é a utopia que me agrada, embora eu não me veja perseguindo-a. Quem sabe um dia, quando eu mudar muito. Talvez eu possa dizer que só não quero ser mais um infortunado Remo, mas seria apenas uma desculpa barata para minha falta de coragem.

Não me julgue por um pessimista, ou por alguém infeliz, apenas sou mais um, quem sabe como você, que vive atrás de algo que no fundo não deseja, mas pensa que precisa e, um dia, poderá se arrepender ou mudar a estrada antes. Ou, o mais difícil, enxergar o caminho alternativo, o terceiro, que engloba tudo que há de bom nos dois primeiros e exclui os percalços e pedras, sem com isso nos privar do aprendizado de suas experiências. Talvez, longe daqui e bem ao lado. Às vezes, a companhia faz a diferença. Às vezes, outras coisas, ou justamente seus antônimos. O que importa é que vivamos, ao menos, um pouco do que desejamos. Eu penso assim, não recomendo a você, pois pode ser mais feliz que eu, mas nem sei o que é e se busco a felicidade. Seja. É o bastante. Eu tento. Não sei o que tento ser, mas tento ser algo, e isso me move.

Que os rios e mares sejam rios e mares, e que as árvores sejam árvores, e que os homens sejam homens e deixem os robôs serem robôs.

Peço perdão se em algum momento me contradisse, mas é justificável, afinal uma contradição é o que realmente somos (e como somos!).

No fim o que importa é o que sentimos e, por vezes, o que produzimos. Mas sempre por alguém, e para alguém. Para nós e por nós, só isso já será o suficiente.