Entendi que a corrupção é algo diferente do que me disseram. Somos corruptos por ângulos, e não da maneira maniqueísta como os mal informados carregados por suas visões canhestras do mundo me disseram. Sou sim um corrupto para aquele que deseja corromper a todos sem admiti-lo, mas não perante aquele que enxerga no que me julga desse modo o verdadeiro corrupto. Somos todos corruptos então, e sejamos-lho sem reclamar nosso título de honestidade, afinal isso já não importa mais.
O que vejo no mundo que me cerca é que as pessoas estão cada vez mais corrompidas e aderindo àquilo que as corrompe, enquanto os loucos como eu são mantidos distante da posição de informantes ou simplesmente deixam de serem ouvidos pela sociedade: calamo-nos à força, para que todos possam continuar sendo corrompidos pelos que tanto nos odeiam. Querem que fechemos nossos olhos e bocas, para que nossas mentes voltem-se a raciocinar sobre a teoria livre de prática que não existe senão nos sonhos dos mesmos corruptos que desenham a realidade morta em que ainda vivemos. Estão em toda parte, aqui e ali, ao meu lado neste momento e em todos os outros, embora eu tente sempre minimizá-los e esquecê-los. O desafio é cada vez maior, e as pessoas desistem de lutar conosco. Quem somos e quem são?
Na minha concepção de corrupção, encaixo justamente os que me dizem que o sou e sempre serei. Não que não o seja, nem que não admita nem saiba diferir quem é ou não. Mas é que muita coisa caracteriza um corrupto, e de diversas formas posso sê-lo. Quando digo que já me corrompi, isso é obviamente lido de diversas maneiras dependendo do expectador, não há aqui uma universalidade, então consideremos as minhas convicções. Tudo pode corromper um homem, e não é por isso que ele é um corrupto para mim, mas a verdade é que hoje poucos procuram manterem-se livres disso ou sequer pensam no assunto.
Creio que todo aquele a seguir as próprias convicções, mesmo que as mude e desde que o faça em razão de seguir na busca daquilo que deseja e tem como projeto nunca manchado, não está se corrompendo. Isso não inclui aqueles que adaptam as devidas antíteses ao desejo de outrem e conseguem, assim, produzir a síntese adequada aos interesses dos corruptores. Mas pode, sim, incluir os que mancharam todos os projetos anteriores e repentinamente traçaram novos objetivos livres das marcas dos oportunistas da coalizão entre sujos e limpos – de onde não restaria nada além de imundície. Afinal, a essência passada não existe mais, e é isso que nos permite ser, no caso, incorruptíveis.
Concordo em pontos com os que me dizem que o ser humano é corrupto por natureza, mas o que digo de novo é que há exceções. E eis a questão: o Estado corrompe o homem ou só o revela? Já disse numa outra oportunidade que confio sempre nos homens, mesmo sabendo que somos corruptos por natureza, e hoje explico isso. O Estado já corrompeu e corrompe muitos homens, mas se isso lhes sucedeu é porque, de alguma maneira, permitiram que ocorresse. E estes, sinceramente, não me interessam – por hora. Perderam-se e não tem mais utilidade alguma – agora – para os que ainda se mantém honestos e limpos. O que atordoa é que a maioria se suje, e mesmo os ideais mais lindos e os melhores idealistas sejam manchados e corrompidos, justamente quando deles se espera que façam a forra dos “incorruptíveis”.
A única chance que a humanidade ainda tem está justamente na crença que ainda mantenho com relação aos homens. Não importa, nesse ponto, se falamos dos corruptos ou dos que se mantiveram a vida inteira incorruptíveis, afinal a ocasião fabrica os fatos e os seres que ordenam o mundo. E é exatamente porque são raros os que aceitam a consciência necessária que existe tanta corrupção, é por esse motivo que poucos se salvam em meio à selva que é o mundo regido pelo capital. E são estes que parabenizo: os que lutam contra a maioria, nadam contra a corrente e não desistem, ou até os que já desistiram e caíram nas lágrimas quando entenderam que somente o Projeto Universal – utopia para os corruptores – poderia levá-los ao lugar que buscavam quando abraçaram tanto metal reluzente.
Entenda-se que a crítica necessária não é algo nato, mas sim uma habilidade que desenvolvemos ou não no decorrer de nossas vidas. É portanto uma contingência. Desse modo, não podemos sempre exigir que todos critiquem, mas podemos estimulá-los a isso e também não permitir que nos calem só porque criticamos. Por esses motivos é que não devemos julgar um homem por perdido quando sobre ele pesar a corrupção, mas acreditar que ainda há para ele tempo para que haja crítica e torne a traçar um novo projeto e crie em si uma nova essência, esta limpa e livre de corrupção.
Não é que seja eu o dono da razão, mas também não o são os corruptores, esses sim inimigos naturais dos homens. Porque quando alguém está tão apaixonado pela corrupção que passa a proliferá-la, ele já teve a oportunidade da crítica, mas fez a leitura de mundo errada que permitiu que prosseguisse agindo de má fé. Para esse homem não vejo espaço em minha ilha: é um salafrário. E é esta classe parasitária e oportunista que mantém a corrupção viva, pois a oferece para os ainda não foram comprados nem corrompidos. Talvez haja tempo também para eles, talvez sempre haja tempo – desta máxima de que um dia tanto ri hoje extraio sentido. Mas mesmo que o tempo lute para salvá-los, o que importa a nós é vencê-los, ridicularizá-los por argumentos, para que estes homens sujos passem a ser exceção e a natureza faça do homem honesto o modelo, não a ser seguido pura e simplesmente, mas primeiro a ser admirado e analisado.
A corrupção pode ser até uma arma, desde que não seja a vista do meu ângulo quando observo alguns de nossos senadores. A corrupção que os verdadeiros corruptos vêem em mim, essa é uma arma, porque é na verdade uma fuga da suja realidade mal qualificada e distorcida por alguns – logo, não é corrupção. Quanto à corrupção que eu vejo neles, essa é um problema, mas tenho de acreditar que a crítica e a consciência podem vencê-la, senão não há no que mais crer e a existência perde todo seu sentido já tão deturpado – e eis a assustadora falsa liberdade. Por isso acredito no homem, e espero que ele possa se livrar do julgamento que lhe fazem os verdadeiros inimigos. Só assim seremos livres, romperemos os falsos valores que os salafrários adoram e nos livraremos da leitura de corrupção que eles fazem.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
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