sábado, 12 de julho de 2008

Realidade

O único modo de um homem ser grande é que lhe façam grande os outros, por meio da leitura de seus atos e de suas palavras. Como almejar a grandeza então, se não pudermos exaltar aqueles que se destacam diante de nosso juízo? A única maneira de ser reconhecido é reconhecer. Por este motivo, o papel dos homens é, precisamente, admirar os que merecem. Entretanto, se admiramos pessoas que em nada engrandecem o mundo, espalhamo-nos na pequenez e reproduzimos, assim, um mundo pequeno.

Os homens não saem dos livros, os livros é que saem dos homens. Admirar a imperfeição não é erro, mas o acerto que permite que se produza algo perfeito. Nesse sentido, a perfeição é justamente o incompleto, o humano, o impuro: o próprio imperfeito. Contemplar não é crime. Admirar é uma necessidade. É somente por esse exercício que se vai adiante. A crítica exige que se efetuem operações de soma e subtração de acordo com o juízo merecido pela situação, indivíduo ou grupo inquirido. Alterar ou evitar operações é o verdadeiro erro. E o resultado é catastrófico: os grandes homens se encerram em masmorras e a pequenez triunfa diante de nossas instituições. E o que essas instituições garantem não é a segurança, mas a falta de admiração crítica à novidade.

Enquanto se puder mascarar sob a alcunha de natureza todo tipo de comportamento que não existe senão pela produção racional de conteúdo por homens, um escudo protegerá aqueles que não enxergam a necessidade da novidade e não percebem que o mundo segue pelo que é e por suas possibilidades. Com o devido respeito às necessárias proporções, o passado não existe senão no passado. A história tem reconhecida utilidade de compreensão, domínio e serve tanto ao propósito de enriquecimento cultural quanto ao de satisfação pessoal e mesmo coletiva. Seus constructos cá estão, mas o ponto do processo de edificação de que trata não pode mais ser trabalhado. Apenas se pode mudar agora o que existirá em seguida. A existência humana é, portanto, um processo de edificação daquilo que será. O passado serve de referência a comparações e entendimentos futuros, mas não existe. Sua leitura pode mesmo carregar um sentido utilitário, mas nesse caso o objetivo é único: compreender para interferir hoje no que haverá amanhã.

Desse modo, compreende-se como o homem é produto de si próprio e como apenas homens constroem a si e aos que o cercam. Em última análise, apenas o que tem existência verificável é agente criador. E é a compreensão do ser humano acerca de si mesmo que permite lapidar a essência humana. Notar que o homem não nasce pronto e que toda sociedade que o precedeu difere daquela em que ele viverá é necessário para que se perceba que tanto o sujeito é produto da teia de relações em que vive quanto esta teia é modificada e recriada constantemente por este e por todos os sujeitos nela presentes. A sociedade e suas instituições que coagem os indivíduos são produtos da relação entre os indivíduos. Dessa perspectiva, é plenamente aceitável que o homem se enxergue como capaz de moldar a si próprio e aos constructos de seu esforço. Essa compreensão de que não nascemos prontos e dotados de um destino é que nos permite alterar a cada instante aquilo que produziremos de nós e do mundo que nos cerca. A vida se apresenta como improviso, um repente; não estamos numa novela e não interpretamos papéis determinados. Se puder existir um controle sobre nossa obra, somente os homens é que são capazes de exercê-lo. E é justamente a capacidade humana de questionar que tem movido adiante as sociedades existentes em rumos diferentes; é a capacidade de criação dos homens que nos premia com o novo.

A grandeza é notavelmente o resultado da interação entre homens diante da realidade que os cerca. E a pequenez também. A justiça está na capacidade de reconhecer e admitir os atributos dos indivíduos. A retórica pode servir a qualquer finalidade e pode muito bem moldar verdades. Mas o que existe é o momento. E o futuro é o que existirá. Não é apenas sentido subjetivo que fundamenta a argumentação, mas a realidade. Este é o critério: o mundo que nos cerca.