Não existe doutrina que me pareça mais bela que o anarquismo, e não há outra que esteja mais distante da nossa realidade também. A sociedade, com suas estruturas e formas de organização, nos últimos séculos, tomou caminhos terríveis, em plena perseguição ao capital – por poucos – e à sobrevivência – por todo o resto. O capitalismo destruiu todas as probabilidades de organização em torno de um grupo de pessoas que se respeitassem e autogerissem sem a necessidade de um órgão maior e corrupto, criou mazelas indestrutíveis e diferenciações de padrões e de classificações sociais que, embora não firam o fato de o homem continuar a ser, ferem o fato de que o homem é Para-Si. Embora muitos ainda preguem a Revolução Armada como solução para a podridão de um sistema falido, infelizmente ela soaria como vilã, embora eu não a imagine assim, tenha visto que estamos falando, obviamente, de algo muito mais complexo. Do modo como o capitalismo selvagem desenhou a vida moderna, uma sociedade libertária implicaria na incapacidade de sobrevivência dos dejetos humanos do liberalismo, pois estes dependem da esmola que os “grandes filantropos” (que os realmente bons não se sintam ofendidos, são mera máquina de propaganda dos mentirosos, ou objeto de renda para corruptos – ressalva seja feita para as exceções, os bons homens que analisam a realidade local e as necessidades, nunca genéricas, daqueles que precisam de ajuda) lhes fingem dar, e sempre dependerão, uma vez que isso é necessário para que o discurso neoliberal faça sentido para os espectadores incautos. E esse absurdo é, antes de tudo, uma defesa – embora pareça propaganda negativa –, veja como são inteligentes os capitalistas mais desumanos – não à toa estão no poder e governam o mundo há tantos anos –, chegam ao ponto de aceitar diferenças sociais criminosas que apenas servem para manter sob controle todo questionamento e crítica quanto ao motivo de vivermos como vivemos – uma vez que somos somente o que somos e o que construímos –, distantes da possibilidade popular de ascensão planejada e construída através da libertação de regras e valores falsos e sem fundamento maior que o capital, que nada mais representa do que as nossas correntes atadas às mais pesadas rochas.
E se a angústia, preço do racionalismo, é o resultado do excesso de responsabilidades humanas, ela torna-se incontestável e demonstra-se verdade, embora eu tenha aprendido que a construção de um ser que realize suas pretensões e ainda possa manter a crítica necessária à vida – verdadeira – é a única maneira de amenizar o pesar causado por essa realidade fomentada. Ainda assim, somente a interação e a observação de cada um para todos e de todos para cada um pode comprovar e colher os resultados de todas essas transformações, pois sem a convivência com outras pessoas, o ser, que já é único, se torna algo sem motivo para ser. Precisamos dos olhos alheios, pois mesmo que isso não mude a construção do Para-Si, torna a obra real.
Recentemente critiquei aqueles que agem em busca da perfeição através da crença em idéias e escolhas aparentemente melhores, mas que não passam de falsa solução para a angústia, pois a idéia inicial de caminho agradável a se percorrer para um objetivo acolhedor é negada quando esquecemos que somos muito mais do que uma corrida pelo vestibular. O futuro não pode depender unicamente de algo tão sujo – e necessário – como o capital.
Observando a Primeira Página do Jornal Folha de São Paulo de 26 de janeiro de 1984, observei algo, no mínimo, curioso: trezentas mil pessoas saíram às ruas da cidade de São Paulo pelas diretas para Presidente da República. Na mesma Primeira Página, uma nota de rodapé faz constar que a solenidade comemorativa dos 50 anos de fundação da USP foi marcada por uma invasão ao anfiteatro do Centro de Convenções da Cidade Universitária, onde alunos e funcionários exigiam diretas para presidente e reitor. Mais de 20 anos depois, a massa que foi às ruas de São Paulo atingiu seus objetivos, mas os estudantes da USP não. Talvez porque a massa seja facilmente manipulável, já os estudantes... Eleições diretas para Presidente da República não chegam a ser problema, uma vez que grande parte das pessoas – que tanto lutaram pela democracia – infelizmente não sabe o que está fazendo quando vota, logo, isso não oferece tanto risco aos poderosos acumuladores de capital que governam o mundo há tanto tempo. Mas quanto aos estudantes, ah... Uma vez que sabem pelo que estão lutando, não alcançam o objetivo, e justamente pelo perigoso excesso de consciência, que tanto assusta os donos da Terra.
E se alguém se sente aqui ofendido, saiba que não acho feio lutar (muito pelo contrário!), mas acho ridículo que os maiores beneficiários da luta se acomodem e façam mal uso do objeto de conquista. É como um povo que vê estudantes irem às ruas para derrubar um liberal corrupto (leia-se F. Collor) e elege, anos depois, FHC. Não faz o menor sentido, é cegueira pura – infelizmente.
De todo modo, tudo pelo que passamos, atualmente, é o resultado da pressão e do conjunto de forças desnecessárias que a sociedade exerce sobre aqueles que deveriam estar reconstruindo as vigas derrubadas pelos sanguinários sem alma. E, assim, continuaremos sempre a desviar das estruturas que vem abaixo diariamente, fingindo que estamos vivos e lutando para assim estarmos um dia – e enquanto isso, a vida passa.
sábado, 11 de agosto de 2007
Assinar:
Postagens (Atom)