quinta-feira, 26 de julho de 2007

Mundo Estranho

Pessoas exigem cada vez mais umas das outras, e nem sabem mais por qual motivo. Crianças são criadas em mundos de terror, onde tudo o que importa é o futuro, mesmo que elas ainda não saibam o que é isso. E quando elas crescem um pouquinho, são atiradas de cara numa parede cheia de pregos atravessados, com a face pontiaguda a lhes perfurar os corpos por inteiro: ESCOLHA, e faça-o rápido. Não se apresse, mas lembre que não há demora que compense os que não pensam no capital. Ah, o Capital! Sim, Capital, não capital. Nada de tão suma importância pode ser escrito a letras minúsculas. E por ele viveremos e morreremos, perseguiremos uns aos outros e destruiremos amigos e amizades, até mesmo as que ainda não estiverem edificadas por completo. A competição se torna o segredo para o sucesso e, sem saber por que, as crianças perseguem isso como se estivessem se afastando do risco dos pregos, quando na verdade já foram por estes feridos de morte. E é assim, e será cada vez pior, enquanto houver homens vivendo naquilo que chamamos de mundo globalizado, mas onde a maioria deles vê apenas o cenário da vingança: o local onde aqueles que sofreram com os machucados e cortes poderão empurrar novas crianças para a mesma parede (então maior e mais moderna), mas desta vez as suas crianças, que um dia também terão as próprias crianças para empurrar.

É importante lutar por algo, perseguir seus sonhos e torná-los realidade, mas cada vez menos nossos sonhos nos satisfazem... Penso que um dia os trocarão por anúncios pagos. Iremos receber (em dinheiro!) para ter os sonhos que melhor atenderem a vontade de outrem, e isso deverá contribuir para que um dia possamos comprar nossos próprios sonhos. É um mercado promissor!

E aqueles que podem sonhar sem preocupação nunca o farão melhor, e não graças ao esforço próprio, mas ao de seus antepassados, no máximo (quando não graças ao nosso).

A burguesia nunca esteve tão bem articulada (e fechada) e nunca alimentou tão bem ao proletariado, que nunca esteve tão perdido no espaço em que vive. A classe média pensa que pode comprar passagens na primeira classe, mas não contaram pra eles que aquilo é econômica maquiada para que eles se satisfaçam e não invadam a verdadeira primeira classe, onde já estão aqueles que um dia precisaram destes bobos, mas não precisam mais, e só os iludem para que não se sintam parte do proletariado que são.

Marx fez estudos profundos das classes que coexistiam no período em que viveu (creio que ninguém tenha feito isso melhor que ele), e estas classes pouco mudaram desde então, e embora hoje pareçam outras, as únicas diferenças estão nas porções de rações recebidas e devolvidas por cada uma e a cada outra. Em minha opinião, classes não deveriam existir: somos homens, e por mais desenvolvida que seja uma sociedade, não deveria esconder a real natureza do Ser. Cada um deveria ter aquilo pelo que pode lutar e que é capaz de defender, afinal, como posso ser dono de algo que existia antes de mim e continuará existindo sem mim? Desse modo, não há o menor sentido no estudo da organização social, se isso não existe na nossa natureza, e é só uma falácia da nossa mente evoluída. Leis são um absurdo, bem como regras de convivência e a ordem. Não é que não me agradem, mas tente pensar sobre o assunto... Como podemos criar coisas tão complexas que seriam totalmente desnecessárias se as pessoas simplesmente respeitassem umas às outras?

É realmente complicado, triste e cada dia mais doloroso, mas não faremos nada para alterar isso, somos bichos presos às paredes da nossa Caverna, com medo da luz que poda manchar a nossa visão de mundo bem construído e projetado contra a parede do fundo de nossa habitação. Talvez por isso nunca tenhamos coragem de deixar nossas crianças livres dos mesmos fantasmas que nos atormentam agora ou atormentaram outrora. Talvez por isso amanhã ponhamos nossas crianças diante de pregos e firamo-nas, ao invés de pô-las no chão de terra. E por isso prosseguiremos assim, rumando à eterna evolução e ao fiasco, em simultâneo.

Um comentário:

Cezar disse...

Alisson vou lhe contar uma pequena história sobre a novidade. A novidade é por definição algo novo que revoluciona e que cai na mente de todos os homens e mulheres de forma estrondosa só que depois de um pequeno periodo de tempo cai no esquecimento, não seria muito mais fácil então manter as idéias vivas no coração de um só homem afim de cultiva-la para sempre sem deixá-la cair no esquecimento?
A vida se torna um novidade nos primeiros anos de vida, quando bebes enxergam o mundo com aqueles grandes olhos arregalados observando tudo e desfrutando de tudo com tanto entusiasmo que uma pequena gota parece uma grande cachoeira, mas existe algo na natureza humana, chama-se sangue suga, algo que sempre quer mais e mais e faz com que a novidade do admirável mundo novo torne-se algo banal... assim é o homem e a mulher de hoje, banal... como num jogo de cartas, não importa o nipe, são todos ás dois três quatro, cinco, seis, sete, oito, nove dez valete dama rei. Todos igualmente sem essencia e sem personalidade, até o dia em que o curinga se infiltra na sociedade, no jogo e faz todas as regras da banalidade humana serem jogadas abaixo de seu potencial intelectual... Parabéns Curinga texto magnifico!